correspondências

derivas coletivas na urbanidade conectada

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correspondência e deriva


No brevíssimo conto “Do rigor na ciência”, Borges conta a história de um império cujos cartógrafos haviam chegado a tal nível de perfeição que desenharam um mapa no tamanho exato do império, coincidindo pontualmente com a sua superfície. O texto serve de metáfora para nossos tempos hiperconectados: será a internet uma tentativa contemporânea de desenhar esse mapa impossível? Será loucura imaginar que nosso mapa virtual alcançará um dia a dimensão do mundo real, considerando todas as suas infinitas camadas, físicas e simbólicas?

De Borges para Debord. Mergulhados no desenvolvimento acelerado das grandes cidades em meados do século 20, os artistas-intelectuais-ativistas da Internacional Situacionista criticavam o urbanismo alienante da sociedade do espetáculo e defendiam o uso revolucionário do espaço urbano a partir da construção de situações, “a construção concreta de ambiências momentâneas da vida”. Entre as estratégias utilizadas pelos situacionistas, a mais proeminente era a da “deriva”, uma forma de estudo e apropriação do espaço urbano realizada através do andar sem rumo, mapeando no percurso os comportamentos afetivos dos “derivantes” – a psicogeografia.

Como sugere o seu título, o projeto Correspondências buscou estimular o intercâmbio de conhecimentos e experiências e a elaboração de correlações entre os participantes das cinco cidades por onde esteve, a saber: Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Rio Branco e São Paulo. A partir das reflexões propostas por Borges e Debord, entre outras referências conceituais e estéticas, partimos para a elaboração de um jogo cartográfico baseado na deriva situacionista. O jogo foi realizado em duas camadas, ou tabuleiros, interdependentes: uma virtual, baseada em ferramentas de interação online (Facebook ,Tumblr, Google Maps etc.), que se estende por toda a duração dos trabalhos, e outra presencial, nas ruas,realizada durante uma série de oficinas práticas organizadas nas cinco cidades que receberam o projeto.

Método

Inicialmente, um grupo de 60 pessoas (12 em cada cidade) foi selecionado a partir de um total de 290 inscritos. Durante as semanas que antecederam as oficinas práticas, os participantes foram estimulados a produzir e publicar vídeos de curta duração (aproximadamente um minuto) que apresentassem uma breve paisagem visual de suas cidades, como uma espécie de fotografia em movimento.

Foram publicados 38 vídeos no Tumblr do projeto, que também serviu de plataforma para a apresentação e discussão de referências. Em seguida, cada cidade teve um mapa de sua mancha urbana impresso, em alta definição e a partir de escalas idênticas, em papel vegetal, e cada vídeo publicado pelos participantes foi então georreferenciado no mapa impresso correspondente. Durante as oficinas práticas, o primeiro exercício proposto aos participantes era sobrepor o mapa de sua respectiva cidade aos das demais – a transparência do papel vegetal e o georreferenciamento “feito à mão” fizeram com que os pontos demarcados em um mapa (as paisagens visuais) pudessem ser transpostos para outro, criando assim um ponto de partida para a elaboração das correspondências.

O projeto percorreu as cinco macrorregiões do Brasil, chegando a cidades com realidades tão díspares como Rio Branco, com cerca de 350 mil habitantes, e São Paulo, com mais de 11 milhões. A sobreposição dos mapas, impressos em escalas idênticas, permitiu explorar contrastes e descobrir semelhanças entre as cinco capitais – o que significa ir de casa para o trabalho em Fortaleza e em Goiânia, por exemplo? Quanto tempo se leva para ir de um extremo a outro da cidade em Curitiba e em Rio Branco? Quais são os meios de transporte mais adequados a cada percurso? Questões como essas balizaram a realização das oficinas, e foram vivenciadas na prática: a partir das sobreposições e de provocações, os participantes foram estimulados a percorrer (derivar) as ruas de suas cidades com olhos atentos tanto a questões objetivas (meios de transporte, infraestrutura etc.) quanto aos estímulos subjetivos encontrados pelos caminhos.

Cada percurso vivenciado deu origem a um vídeo curto, com tema e abordagem decididos coletivamente. Essa plataforma compõe assim uma narrativa fragmentada que busca dar conta da complexidade física e simbólica das correspondências elaboradas no processo.

bula


O que você vê aqui é uma narrativa em fragmentos. Cada capítulo nasce do diálogo (ou seja, do caminho) entre dois pontos (A → B). Assim como os autores derivaram pelas cidades e mapas, convidamos você também a derivar pelos caminhos percorridos. Não há um fluxo linear ou uma receita para compreender o resultado. O que oferecemos em seguida é um breve guia para ilustrar os passos que orientaram o processo de construção das Correspondências:

– O ponto A é o ponto determinado pelo Google Maps como representante da cidade em que se realiza a oficina. Por exemplo: busque Fortaleza no Google Maps e você tem o ponto A desta cidade.

– O ponto B é o ponto da mesma cidade que corresponde, nos mapas sobrepostos, a um ponto da cidade correspondente.

 

Traduzindo em exemplo:

Este vídeo foi feito na Praça Roosevelt, em São Paulo, no dia 21/03:

Sobrepondo o mapa de Rio Branco ao de São Paulo e centralizando-os no mesmo ponto A, obtemos o ponto correspondente em Rio Branco (ponto B).

Screen Shot 2013-07-25 at 5.09.44 PM

Mapa de Rio Branco contendo a marcação dos pontos das outras cidades e rotas percorridas.

 

O caminho entre A e B serve de objeto de pesquisa para a produção do vídeo final:

vídeos


ficha técnica


Correspondências é um projeto realizado pela Garapa por meio do programa Rede Nacional Funarte Artes Visuais – 9a. Edição.

Participantes

São Paulo

Alexandre Severo, Carina Cordeiro de Melo, Gabrieli Azevedo,
Guilherme Farkas, Isabella Lourençon Vidal, Luís Otávio Ribeiro,
Marta Bosquet, Priscila Gonsales, Willian Alencar

Fortaleza

Bárbara Cabeça, Betânia Barbosa, Chico Alencar,
Iana Soares, Igor Grazianno, Laura Montenegro, Pedro Cândido,
Pedro Favali, Ranniery Melo, Samuel Tomé, Vivianne Morais

Goiânia

Henrique Borela, Joardo Filho, Leandro de Araújo Moura,
Lucas Mariano, Luiz Alberto Soares Jr., Marielle Sant’Anna,
Paulo Coelho Nunes, Yasmim Pessoa

Rio Branco

Carina Cordeiro de Melo, Eliane Rocha,
Jessé Luiz, Jobson Costa, Lauro Chamma,
Mariana Farias, Natália Jung, Wiviany Costa

Curitiba

Annaline Curado, Erik Tavernaro, Guto Souza,
Henrique Oliveira, Jessé Giotti, Karina Buzzi,
Michele Bravos, Rafael Oliveira da Silva, Tatyane Ravedutti

Apoio

Ideia Cultural e Ambiental
Casa da Cultura Digital
IFoto – Instituto da Fotografia
Pium Fotoclube
Fundação Elias Mansour
Portfolio Escola de Fotografia

Agradecimentos

Cinthia Davanzo
Clara Machado
Iana Soares
Nilo Biazzetto Neto
Talita Oliveira
Vinícius Berger Araújo