Isso é Jornalismo?
10.04.2008 | Publicado por Garapa

Como fotojornalistas, e como cidadãos, sentimo-nos na obrigação de declarar nosso repúdio à recente publicação, pela Revista IstoÉ, de uma foto alterada digitalmente, como os caros leitores podem verificar pelas cópias de tela que acompanham esse texto.
A foto original foi feita pelo fotógrafo Cristiano Machado, publicada e comercializada pela Folha de S. Paulo. Como podem perceber, a inscrição “Fora Serra” foi apagada na versão da IstoÉ.

Em texto publicado na Folha de S. Paulo de hoje, 10 de abril, o editor-executivo da agência IstoÉ confirmou a alteração e pediu desculpas:
Houve realmente manipulação por photoshop [programa de computador] da imagem dos sem-terra, com intenção absolutamente estética.” Ele afirmou, por telefone, que “não houve nenhuma ordem [superior], nenhuma orientação política, nenhum dolo. Houve um mal-entendido”.
O debate sobre a manipulação de imagens no jornalismo não é novo, mas não lembramos de ninguém, em nenhum fórum, que tenha sinceramente defendido a prática. A alteração feita pela IstoÉ foi, além de claramente ideológica (apesar de a revista negar), leviana, e desrespeitosa tanto com o fotojornalista autor da imagem quanto com o leitor da revista.
Acreditamos que o trabalho jornalístico, como todos os outros, deve ser feito com honestidade e transparência, independente de posições políticas/editoriais. No momento da leitura, trava-se um pacto de confiança entre leitor e veículo, pacto esse que percebemos ter sido quebrado pela revista.
Felizmente, temos a internet como um espaço aberto de debates no qual tais atitudes não passam despercebidas. Felizmente, podemos contar com o público para inibir ações inaceitáveis como essa.
Mais:
- Versão online da matéria da Revista IstoÉ que contém a foto alterada;
- Versão original da fotografia publicada pela Folha de S. Paulo (desça um pouco na página para encontrar a imagem);
- Artigo no Observatório da Imprensa sobre o caso.

7 Comentários ↓
[...] difícil… E quando eu falo em manipulação não estou apenas me referindo às alterações escrachadas, mas à manipulações menos visíveis (principalmente em no formato tradicional). Tomemos por [...]
[...] Granado. É uma vez mais por ele que chega a chamada de atenção para um artigo de denúncia de manipulação fotográfica publicado no [...]
[...] GARAPA, de que aqui falei há dois dias, tem um post sobre manipulação fotográfica que vale a pena [...]
[...] Para ler as criticas que a revista recebeu pela adulteração da foto clique aqui, aqui e aqui. [...]
Incrível! Como ainda hoje em dia pode haver um jornalismo tão sensacionalista e tão manipulador, parabéns, devemos sempre denunciar isso!!!
Vocês estão cada vez melhores!
Abs.
Um lastimável exemplo de manipulação de imagem; que fere mortalmente a ética e a dignidade da profissão de fotojornalista, bem como a credibilidade e a imparcialidade do registro fotográfico original.
Vergonha !!!
Muitos DA ou simplesmente diagramadores de revista se acham no direito de fazer alterações “esteticas” nas imagens entregues para ilustrar matérias das mais variadas. Não se consulta o fotojornalista, o editor (pois o editor de fotografia já não mais existe na maioria das redações), ninguém mais é consultado simplesmente toma-se a decisão e manda-se rodar a edição.
Tenho acompanhando alterações que comprometem a credibilidade de todos do fotojornalista ao título que está no mercado. Há também um descaso com a informação, jovens jornalista manipulam numeros e palavras para criar um sensacionalismo que compromete e não leva a nada.
Foi-se o respeito e a credibilidade do autor, haja visto os contratos apresentados para fornecimento de imagens. Onde o direito a alteração do original é sempre presente.
Minha opinião é que tudo isso se agravou com o uso de imagens oriundas de não fotógrafos ou fotojornalista onde a qualidade precária das mesma obriga a manipulação para o uso ilustrativo. Com isso criou-se o hábito que se estendeu a todos os profissionais que buscam uma linguagem adequada e real no momento do click.
Está mais do que hora de se berrar. Gritar pela volta da profissão com respeito e credibilidade a quem faz bem feito.
Abraços